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POEMAS GOTICOS

terça-feira, 28 de dezembro de 2010.
De Edgar Allan Poe
Tradução de Glória Athanázio e Karla de Barros Leite


A morte escarlate há tempos devastava o país. Nenhuma peste havia sido tão fatal, ou tão hedionda. Sangue era seu Avatar e seu selo – a loucura e o horror do sangue. Surgiam dores agudas, tontura súbita e, em seguida, sangramento em profusão pelos poros e a consumição. As manchas vermelhas no corpo, em especial no rosto da vítima, eram maldições proibidas que a afastavam do socorro e da simpatia de seus companheiros. E todo processo, a evolução e o extermínio, ocorria em meia hora.
Mas, príncipe Próspero era feliz, destemido e sagaz. Quando a população de seus domínios foi reduzida à metade, convocou à sua presença um milhar de saudáveis e despreocupados amigos entre os cavaleiros e damas de sua corte, e com estes retirou-se à total solidão de um dos seus mosteiros fortificados. Esta era uma estrutura extensa e magnífica, uma criação própria do príncipe, excêntrica, mas de um gosto majestoso. Completamente cercada por uma forte e altiva muralha, era protegida por portões de ferro. Após a entrada dos cortesãos, trouxe pesados martelos e fornos e soldou-lhe as trancas.
Resolveram não deixar meios de entrada ou de saída, para os súbitos impulsos de desespero ou para a loucura que havia à volta. A abadia foi amplamente abastecida. Com essas precauções, os cortesãos poderiam desafiar o contágio. O mundo exterior podia cuidar de si mesmo. Nesse momento, era loucura sofrer ou pensar no assunto. O príncipe tinha providenciado todos os tipos de prazeres. Havia bobos da corte, repentistas, bailarinos, músicos, Beleza e vinho. Tudo isso, mais a segurança, estava lá dentro. Lá fora estava a “Morte Escarlate".
Ao final do quinto ou sexto mês de sua reclusão, o Príncipe Próspero recepcionou seus milhares de amigos com um baile de máscaras de uma magnificência fora do comum.
Era um cenário voluptuoso, aquele do baile de máscaras. Mas, primeiro, deixe-me falar das salas onde ele foi preparado. Eram sete - uma suíte imperial. Porém, em muitos palácios, essas suítes formam um amplo e extenso cenário, quando as portas dobráveis deslizam até bem próximo das paredes em ambos os lados, para que a visão total não seja prejudicada. Aqui, o caso era muito diferente, como era de se esperar vindo do duque do amor pelo "bizarro". Os apartamentos eram tão irregularmente dispostos, que a visão cobria pouco mais que um por vez. Havia uma curva acentuada tanto para a direita como para a esquerda e, no meio de cada parede, uma alta e estreita janela gótica dava para um corredor fechado que acompanhava o contorno da suíte. Essas janelas eram de vitral, cuja cor variava de acordo com a tonalidade predominante na decoração da sala que se abria. Aquela, na extremidade oriental, por exemplo, era azul - e de um azul vívido eram suas janelas. A segunda câmara era roxa em seus ornamentos e tapeçarias, e ali os vidros eram roxos. A terceira era toda verde, e assim eram os batentes da janela. A quarta foi mobiliada e iluminada com laranja - a quinta com branco - a sexta com violeta. O sétimo apartamento estava envolto em tapeçarias de veludo preto, penduradas por todo o teto e nas paredes, caindo em pesadas dobras sobre um tapete do mesmo material e tonalidade. Mas, somente nesta câmara, a cor das janelas não correspondia à decoração. Os vidros eram escarlates - uma cor profunda de sangue.
Em nenhum dos sete apartamentos havia qualquer lâmpada ou candelabro em meio à profusão de ornamentos dourados espalhados por todos os cantos ou dependurados no teto. Não havia qualquer tipo de luz proveniente de lâmpada ou vela dentro da suíte das câmaras.
Mas nos corredores que circundavam a suíte havia, diante de cada janela, um pesado tripé com um braseiro, que projetava seus raios pelos vitrais coloridos e, assim, produzia uma infinidade de efeitos vistosos e fantásticos. Mas na parte oeste, na câmara posterior, o efeito do clarão de luz que jorrava sobre as cortinas escuras através das vidraças cor de sangue era desagradável ao extremo e produzia uma visão tão selvagem do semblante de quem entrava que, afinal, poucos ousavam colocar os pés naqueles limites. Era também nesse apartamento que se achava, encostado à parede oeste, um gigantesco relógio de ébano. Seu pêndulo balançava com um ressonar aborrecido, pesado, monótono; quando o ponteiro dos minutos fechava o circuito, e estava para fechar a hora, veio dos pulmões de bronze do relógio um som, que era claro, alto, profundo e extremamente musical, mas com uma nota tão peculiar e enfática que, de hora em hora, os músicos da orquestra eram forçados a interromper momentaneamente sua apresentação para escutar o som, e, portanto, os dançarinos necessariamente paravam sua evolução, e ocorria uma breve perturbação em todo aquele alegre grupo. Aconteceu que, enquanto os carrilhões do relógio ainda tocavam, observou-se que os mais excitados empalideceram e os mais velhos e calmos passavam a mão na sobrancelha, como que em um confuso devaneio ou em meditação.

E, quando os ecos tinha

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